No início da pandemia de covid-19, parecia que estávamos enfrentando uma infecção essencialmente respiratória. O tempo, porém, mostrou uma face muito mais complexa do vírus, capaz de afetar o organismo de forma sistêmica. Quando pacientes já recuperados começaram a relatar sintomas como fadiga crônica, tontura, dores no corpo, falta de ar, refluxo, formigamentos e queda de cabelo, ficou claro que, para muitos, as consequências da doença seriam duradouras. Embora o reconhecimento oficial da “covid longa” pela Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha sido um marco, a rotina desses pacientes continuou desafiadora. Muitos têm enfrentado uma verdadeira peregrinação por consultórios, submetidos a exames desconexos por profissionais de especialidades que não se comunicam. Para mudar essa realidade, um grupo de cientistas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) percebeu que precisava transformar a própria forma de fazer ciência.
Eles criaram um modelo interdisciplinar inédito, desenhado para olhar para o paciente por inteiro. “O grande desafio na fase aguda da covid era entender como lidar com uma doença tão sistêmica. Quando fomos analisar o pós-covid e as sequelas, vimos que o cuidado também precisaria ser sistêmico. Exigia atenção ao coração, ao pulmão, ao rim… mas, acima de tudo, às conexões entre eles. No nosso corpo, nenhum órgão funciona de forma isolada”, diz a pesquisadora Laura Azevedo. Fazer diferentes especialidades médicas entrarem em acordo sobre métodos e definições não é uma tarefa trivial, mesmo nos principais centros de saúde do mundo.
Ainda assim, a equipe da USP conseguiu reunir 22 grupos de pesquisa de 15 especialidades diferentes para investigar os impactos de longo prazo da covid-19. O modelo, descrito em um artigo na revista Clinics tendo Laura Azevedo como primeira autora, permitiu que os voluntários fizessem uma bateria abrangente de exames — incluindo tomografias, ecocardiogramas, testes cardiopulmonares, avaliações cognitivas, psiquiátricas, musculares e pulmonares — em apenas dois dias de visitas presenciais. Ao todo, a equipe realizou aproximadamente 11 mil exames. Em vez de cada especialidade adotar uma rotina isolada, as investigações foram integradas. Se duas áreas precisavam de testes de caminhada semelhantes ou de análises de sangue, os protocolos eram unificados. Assim, o paciente realizava um único procedimento que servia para múltiplos grupos de pesquisa.
A estratégia reduziu o desperdício, otimizou o volume de sangue extraído e poupou tempo e desconforto aos participantes. O estudo comprovou que é possível realizar uma investigação científica profunda sobre uma doença complexa sem sobrecarregar o paciente, servindo de exemplo para a gestão de futuros desafios de saúde pública. “A implementação [do modelo] demonstrou que a pesquisa interdisciplinar aumenta o engajamento do paciente, reduz a fragmentação e apoia investigações eficientes e de alta qualidade”, escrevem os pesquisadores. A pesquisa integrou um estudo de coorte já em curso pelo Grupo de Estudos da Covid-19 com pacientes do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP). Logo nas primeiras avaliações (feitas de seis a 11 meses após a alta), 83% das pessoas ainda apresentavam pelo menos um sintoma, sendo os mais comuns fadiga, tonturas, dores no corpo e falta de ar (dispneia) — o que justificou a necessidade de um acompanhamento prolongado de quatro anos. Na etapa mais recente, os pacientes foram avaliados entre 41 e 47 meses após a alta hospitalar,
📰 Leia a notícia completa em: Medicina S/A »