Da pesquisa aplicada em saúde às iniciativas de empreendedorismo, tecnologia e inovação social, a USP de Ribeirão Preto consolidou nos últimos anos uma rede que conecta laboratórios, pesquisadores, estudantes, hospital, startups e empresas para transformar conhecimento científico em soluções capazes de chegar à sociedade. O movimento não está concentrado em uma única estrutura. Ele se espalha por diferentes iniciativas do campus que, embora independentes entre si, passaram a atuar de forma cada vez mais complementar. Atualmente, essa rede envolve a Agência USP de Inovação e o Inova USP, vinculados à Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, o Supera Parque de Inovação e Tecnologia, a Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) da Faculdade de Medicina (FMRP), o Núcleo de Inovação do Hospital das Clínicas (HC) da FMRP e o Hemocentro, com o Núcleo de Terapia Avançada (Nutera RP) e o Núcleo de Terapia Celular (NuTeC), estruturas voltadas a terapias avançadas e inovação em saúde. O ecossistema também reúne iniciativas de formação empreendedora, como o coworking Teias Empreendedorismo e Inovação, o Núcleo de Empreendedores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-RP), além de dezenas de disciplinas, programas e projetos distribuídos pelas unidades do campus. O sistema não funciona em lógica hierárquica. Cada estrutura ocupa uma etapa diferente da jornada da inovação: algumas trabalham formação e cultura empreendedora; outras atuam na maturação tecnológica; algumas aproximam pesquisadores e empresas; outras oferecem infraestrutura para incubação, validação clínica ou aplicação em saúde. Em comum, todas tentam enfrentar um desafio histórico das universidades: fazer com que o conhecimento produzido nos laboratórios consiga ultrapassar os limites acadêmicos e circular para além da publicação científica. “Hoje a inovação é entendida pela USP como uma dimensão estratégica da universidade”, afirma o pró-reitor adjunto de Pesquisa e Inovação da USP, Norberto Peporine Lopes. “Não apenas como proteção de patentes, mas porque ela conecta pesquisa, formação de pessoas, empreendedorismo e transformação social. ” A discussão ganhou força especialmente porque universidades passaram a enfrentar pressão crescente para transformar descobertas científicas em produtos, serviços, startups, terapias, tecnologias ou políticas públicas. “Muitas vezes a universidade produz uma excelente descoberta científica, mas transformar isso em produto exige amadurecimento tecnológico, testes, validação regulatória, infraestrutura e conexão com empresas”, afirma Lopes. O pró-reitor lembra que esse não é um gargalo exclusivo da USP: “É um desafio de qualquer ambiente inovador no mundo. ” Esse intervalo entre a descoberta científica e a aplicação prática é conhecido internacionalmente como “vale da morte” da inovação, etapa em que tecnologias ainda são consideradas arriscadas demais para o mercado, mas já exigem investimentos, validação e estrutura para continuar avançando. Em Ribeirão Preto, o ecossistema começou a se consolidar justamente para reduzir essa distância entre universidade e sociedade. Ao longo dos últimos anos, diferentes estruturas passaram a operar de forma complementar, criando uma espécie de percurso contínuo para pesquisadores interessados em transformar conhecimento em inovação. No campus, a Agência USP de Inovação atua como articuladora junto aos habits de inovação como Supera Parque e incubadoras e funciona como uma das principais portas institucionais para pesquisadores interessados em proteger tecnologias, estruturar parcerias ou aproximar pesquisas do setor produtivo. O Polo Ribeirão Preto/Bauru atua diretamente em temas ligados à propriedade intelectual, transferência de tecnologia e empreendedorismo acadêmico.
Segundo dados da Agência USP de Inovação, o polo Ribeirão Preto/Bauru concentra atualmente 537 ativos de propriedade intelectual (entre patentes, softwares, marcas, modelos de utilidade, desenhos industriais e certificados de adição), volume que representa cerca de 20% de todo o portfólio de propriedade intelectual da USP. Apenas Ribeirão Preto reúne 390 patentes, 45 registros de software e 21 modelos de utilidade. Em Bauru, o destaque está principalmente nas áreas de marcas e patentes. Na área de transferência tecnológica, o polo também responde por cerca de 1/3 dos licenciamentos realizados pela Universidade: são 29 acordos firmados, de um total de 104 existentes em toda a USP. Desses, oito permanecem atualmente ativos. Na prática, a atuação envolve desde depósitos de patentes e registro de software até acordos colaborativos com empresas, licenciamentos e orientação para criação de spin-offs acadêmicos. “A inovação conecta pesquisa, formação de pessoas e transformação social”, afirma Flávia Prado, coordenadora da Agência USP de Inovação em Ribeirão Preto e Bauru. Segundo Flávia, o papel da agência é justamente ajudar a criar caminhos para que esse conhecimento consiga circular para além da Universidade. Ela destaca ainda que a agência atua como estrutura de apoio para pesquisadores que muitas vezes têm produção científica robusta, mas pouca familiaridade com processos ligados à inovação, transferência tecnológica e propriedade intelectual. É justamente nesse intervalo entre laboratório e mercado que o Inova USP Ribeirão Preto pretende atuar. “O Inova entra entre o final de um trabalho de graduação ou pós-graduação e antes da incubação em um parque tecnológico”, explica o coordenador Antônio José da Costa Filho. “Existe uma produção muito grande de trabalhos científicos com potencial de gerar inovação, mas que acabam não alcançando essa etapa porque não tiveram apoio nesse período intermediário. ” A proposta é funcionar como um ambiente de pré-incubação para projetos ainda imaturos do ponto de vista tecnológico e empresarial. Segundo Costa, o campus já possuía grupos de pesquisa fortemente ligados à inovação, mas faltava uma estrutura que articulasse essas iniciativas e reduzisse a distância entre ciência e aplicação prática. “O Inova completa uma trilha de inovação que começa nos laboratórios e pode culminar na incubação dentro do Supera Parque”, afirma. O novo prédio do Inova, inaugurado recentemente, deve desempenhar papel central nessa estratégia. A estrutura abrigará laboratórios multiusuários, espaços de coworking laboratorial e ambientes voltados ao desenvolvimento conjunto de projetos.
Costa afirma que o espaço pretende funcionar como um “farol” para pesquisadores interessados em empreendedorismo científico e tecnológico. “O objetivo é que pesquisadores, que antes trabalhavam separados, possam agora desenvolver projetos juntos e dentro do mesmo espaço”, afirma. Segundo ele, Ribeirão Preto desenvolveu uma vocação própria dentro da USP, especialmente ligada à saúde, biotecnologia, terapias avançadas, equipamentos médicos, softwares e ferramentas diagnósticas. “Existe um DNA muito forte do campus voltado à saúde e à inovação aplicada”, diz. Uma das principais apostas do Inova é o Nidus, primeira residência universitária em inovação do País. O programa terá duração de dois anos e será baseado no desenvolvimento de projetos reais. “Diferente de um curso tradicional de empreendedorismo, o Nidus não se limita à transmissão de conteúdo”, explica o vice-coordenador do Inova USP Ribeirão, Alexandre Dias. “Os participantes são desafiados a transformar ideias em soluções viáveis, com mentorias, validação de mercado e acompanhamento contínuo. ” Se o Inova atua no amadurecimento inicial dos projetos, o Supera Parque de Inovação e Tecnologia aparece como a principal infraestrutura de incubação e conexão com o mercado. “Quando se pensa em tecnologias para saúde, o Supera aparece como destino natural das inovações surgidas dentro da USP”, afirma Dalton Siqueira Pitta Marques, gerente de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico do parque. A saúde é hoje a principal vocação do parque, embora empresas de outras áreas também integrem o ambiente. Segundo Dalton, o Supera atua justamente no amadurecimento tecnológico e aproximação das soluções produzidas pela universidade das demandas reais do mercado. “A conexão com a Universidade funciona, mas entre os laboratórios e a aplicação prática existe um percurso que envolve validação tecnológica, adaptação e amadurecimento”, explica. Hoje, a USP é a principal fornecedora de empreendedores do Supera. Das empresas residentes, 14 nasceram diretamente de pesquisas realizadas dentro da Universidade, enquanto 55 foram criadas por ex-alunos da USP. A taxa de sobrevivência das startups incubadas também chama atenção: segundo o parque, 85% das empresas apoiadas conseguem chegar ao mercado. A demanda crescente já pressiona a infraestrutura disponível.
Todas as salas dos prédios e do Container Park estão ocupadas, enquanto empresas já iniciaram a implantação de plantas próprias no loteamento tecnológico. “A expansão é tanto necessidade quanto estratégia”, afirma Dalton. A área hospitalar passou a ocupar papel estratégico dentro do ecossistema local de inovação, especialmente após a reestruturação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) do Hospital das Clínicas da FMRP. Criado em 2017 após o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, o núcleo passou a atuar na gestão de propriedade intelectual, transferência tecnológica, prospecção de parcerias e apoio a projetos inovadores surgidos dentro do hospital. “O HC precisava criar um fluxo para que médicos, enfermeiros, equipes de informática e pesquisadores pudessem transformar iniciativas em projetos estruturados”, explica Edwin Tamashiro, coordenador do NIT do HCFMRP. Segundo ele, o núcleo surgiu por exigência legal, mas também por uma necessidade prática ligada à própria dinâmica hospitalar. “As iniciativas precisavam
Uma rede em construção Embora já apresente resultados concretos, o ecossistema de inovação da USP em Ribeirão Preto ainda é descrito pelos próprios coordenadores como um sistema em construção. O desafio agora já não é apenas criar novas estruturas, mas fazer com que elas operem de forma integrada. Para Lopes, isso exige uma mudança cultural dentro da própria Universidade. “O desafio agora é consolidar uma cultura institucional em que a inovação seja entendida como parte natural da pesquisa e da formação”, afirma. Ao mesmo tempo, ele defende que a rede preserve autonomia e até certo nível de sobreposição entre estruturas. “Em alguns casos, a sobreposição é saudável porque amplia conexões e reduz descontinuidades”, diz. Ainda, segundo Lopes, um dos próximos desafios da Universidade será justamente criar mecanismos de gestão e articulação capazes de dar visibilidade a iniciativas que muitas vezes surgem de forma independente dentro das unidades, hospitais, centros e grupos de pesquisa. “O ecossistema cresceu muito nos últimos anos e hoje existe uma quantidade enorme de iniciativas acontecendo simultaneamente”, afirma, e acrescenta: “O desafio passa também por criar formas de integração para que a própria Universidade consiga enxergar melhor essa rede, estimular conexões e evitar que projetos importantes fiquem isolados”.
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